Paraíba - 15-10-2019 22:50:46

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“Vejo acusados de corrupção que não tem dinheiro nem pra feira”, diz RC e compara compara Calvário a Lava Jato

Na entrevista exclusiva que concedeu aos jornalistas Wellington Farias e Eloise Elane, para o PB Agora, o ex-governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), chegou a apontar semelhanças entre a Operação Calvário e a Lava Jato. A propósito comentou: “Taí a Vaza Jato. Que negócio é esse? Eu escolho o criminoso para depois eu ir atrás do crime? Eu vejo gente acusada e exposta, que não tem dinheiro para fazer feira. Não tem dinheiro para pagar advogado. Como é que alguém participa de um amplo esquema de corrupção e não tem dinheiro para fazer feira? Tem algo errado no meio disso”.

A entrevista de Ricardo Coutinho, feita na quarta-feira (24), durou mais de duas horas e foi a mais longa que ele já concedeu desde que deixou o Governo da Paraíba. O PB Agora está publicando por partes: a primeira foi ontem, e esta é a segunda. Uma terceira parte já está sendo produzida.

Sobre a sua relação com o governador João Azevêdo, Ricardo Coutinho disse que, “para a surpresa de muitos”, ele não tem nenhuma interferência na administração do estadual. “Administrativamente, eu nunca fui consultado sobre absolutamente nada. Politicamente, sim, mas em algumas crises. Nas vezes em que fui demandado, tentei contribuir. Mas demandado sempre em crises, não em projeções nem programas”. Perguntado se, de fato, estaria havendo um afastamento político entre ele e o seu sucessor, Ricardo Coutinho respondeu: “Não. Há um respeito. Só posso me incluir num espaço quando sou chamado. Eu respeito isso, e não posso estar extrapolando o meu limite”. Sobre boatos de que ambos estariam perto de um iminente rompimento político, o ex-governador da Paraíba e presidente da Fundação João Mangabeira foi objetivo: “Só discuto política pública. A política eu discuto, porque sei o trabalho que deu tirar a Paraíba daquela situação de antes, para poder chegar a essa outra situação, de indiscutível reconhecimento nacional”.

Segue a segunda parte da entrevista:

PB Agora – Em algum momento dessa caminhada de gestor, o senhor chegou a ter a sensação de que o projeto poderia não dar certo?

Ricardo Coutinho – Não. Em alguns momentos, eu sentia muita pressão, mas eu acreditava que aquilo era necessário. Por exemplo: a Escola Integral. Ninguém pense que aquilo era festejado. Havia uma reação. Reação legítima até. Tinha professores que trabalhavam em várias escolas, particulares e públicas. É natural que esse professor reagisse para não ficar dois turnos numa só escola, mas o imperativo de você olhar para uma população, quase nenhuma perspectiva de futuro, e tentar dar a ela educação, alimentação é uma obrigação da parte de quem governa.

Ricardo Coutinho – Eu não podia titubear. Havia companheiros que diziam “Ricardo, que m… é essa?”, mas eu tinha que ir adiante. É esse exercício que faz perder, e eu perdi, pessoas de apoio; mas que faz ganhar, também. Mas você tem que ser coerente com aquilo que pensa, e isso para mim é inegociável. E nesse sentido, eu sou estúpido. Se eu tenho pouco tempo para fazer alguma coisa, eu não posso esperar o tempo passar em função de um cargo futuro. Imagina as coisas que eu fiz na Prefeitura (de João Pessoa), ou no próprio Estado, causando reação, porque tinha reação. Eu lembro que, em 2012, quando perdemos a eleição em João Pessoa, muita gente disse que nós estávamos acabados. Mas eu sabia que tudo que você faz corretamente dá frutos. A população não é burra e sabe das coisas, observa as coisas acontecendo. Eu não titubeei na Segurança. Nós construímos uma pauta de muita cobrança na Segurança, mas também tinha que dar condições que não havia antes. Eu peguei um Estado em que a segurança não tinha pistola, tinha revólver 38 com duas balas no tambor. Um policial desses vai sair na rua para fazer o que, com um 38 e duas balas? Nós demos pistola, carro novo e combustível. Agora, o trabalho tem que ser feito.

PB Agora – Qual teria sido o seu grande erro e quais os grandes acertos do seu governo nos oito anos de gestão?

Ricardo Coutinho – Eu cometi muitos erros, evidentemente. Tem coisas que eu gostaria de ter feito. Melhorado a administração, o gerenciamento do setor público. É um desrespeito se ver uma fila enorme de pessoas para tirar um documento; não tem sentido. Agora, confesso que não tinha tanto fôlego para fazer tanta coisa. Eu sei é que, do início até o último dia, 31 de dezembro de 2018, lá em Campina Grande, inaugurando a organização do Mutirão do Serrotão e mais 32 obras, eu não me dei ao direito de relaxar um minuto. Eu me frustro, porque gostaria de ter avançado, de ter começado a Educação Integral Profissionalizante antes do que comecei, no setor sócio educativo, na Fundac. Fiz só depois daquela tragédia do Lar do Garoto, em Lagoa Seca, em que morreram sete jovens. Ali foi uma briga de dois grupos, facilitada por agentes que estavam para sair – porque tinha havido uma seleção – e eles botaram os meninos, botaram “os galos” pra brigar. Aquilo me impactou. Eu fiz uma reunião e disse “quem manda agora sou eu e quero saber de tudo”. E só a partir daí, e esse é meu lamento, foi que implantamos o Ensino Integral e Profissionalizante em todas as unidades da Fundac, coisa que não tem em nenhuma parte do Brasil. Não tive como implantar um sistema de governança, em que você faz pra trás, mas olha pra frente. A gente olha pra trás, só problema, problema. Isso é um atraso enorme para o setor público. Eu como prefeito ou como governador, olhava pra tudo. E dizia que o que der errado a culpa é minha, e o que der certo, naturalmente, o gestor capitaliza.

PB Agora –O senhor falhou na falta de diálogo com os setores da sociedade?

Ricardo Coutinho – Em alguns momentos não consegui dialogar. Porque o diálogo com alguns setores não era um diálogo que ia na melhor direção. E tem algumas coisas que é fundamental ter direção; é inegociável ter direção. Não do ponto de vista particular, mas do ponto de vista político. Esse é o ônus de quem se elege. Quem se elege e diz que vai para onde o povo quer é um péssimo gestor, é um péssimo líder; não é verdadeiro, é um líder falso. Quem se elege é para comandar, respeitando e democratizando os poderes, os espaços. Porque, se a população lhe delegou poderes e vai cobrar o que você está dizendo, e você tem que ir.

PB Agora – O senhor não tinha receio de sofrer desgaste político com determinadas posturas, para atingir a estes objetivos?

Ricardo Coutinho –Eu não quero ser um pela metade. Eu, acreditando na política pública, eu banco. E eu banquei vários desgastes como este. Na Saúde, na Educação. Como socialista, que me considero, banquei a discussão sobre as OSs. Não era privatização. Era tornando algo mais público aquilo que não era verdadeiramente público porque não funcionava. E eu venci esse debate. Havia acusação de que aquilo era neoliberal. Neoliberal é outra coisa, é restringir o público, privilegiando quem tem mais poder econômico. Aquilo ali, não. Eu estava organizando uma escola para o professor dar aula, para se estudar. Agora, a goteira, a iluminação, o lixo, a contratação de pessoal que era toda ilegal, isso passou a ser problema de uma empresa chamada OS, da qual cobrava: se não fizer, não recebe. Agora, cuide da parte pedagógica, e exija a parte estrutural. Eu banquei porque sabia que funcionaria melhor. Em alguns momentos fui duro porque precisava ser duro naquilo em que eu acredito.

PB Agora – O senhor abriu mão de disputar uma candidatura de senador em que, segundo todos os prognósticos, teria uma cadeira garantida no Congresso, até com uma votação histórica, considerando os seus índices de aprovação popular. Ficou no governo para ajudar a eleger o seu sucessor, uma bancada forte na Assembleia Legislativa, e até mesmo eleger um senador. Qual o seu relacionamento hoje com o governador João Azevedo?

Ricardo Coutinho – A minha relação administrativa com João (governador João Azevedo) é quase nenhuma.

PB Agora – O senhor não interfere em nada?

Ricardo Coutinho – Não e nem sou chamado. Porque é o tipo da coisa: Marcia Lucena (prefeita do Conde) me chama pra conversar. Porque é minha função, eu estava ontem la. Eu não ganho nada com isso, mas é o meu alimento da política. Vou lá conversar, vou dar palpite, foi aprender. As pessoas me chamam. O PCdoB me chamou para um debate em São Paulo. Eu vou lá debater a conjuntura. Não é meio de vida, é meio de vivência. Não há um recebimento de nada. Como Governador de Estado, para a surpresa de muitos, eu não tenho nenhuma interferência administrativa. Nas vezes que fui demandado tentei contribuir, mas demandado sempre em crises, não em projeções, em programas.

PB Agora – Estaria mesmo havendo um afastamento entre o senhor e o seu sucessor, João Azevedo?

Ricardo Coutinho – Não. Há um respeito, porque só posso me incluir num espaço quando sou chamado. Eu respeito isso. Eu não posso estar extrapolando o meu limite.

PB Agora – Mas o senhor tem alguma queixa de João Azevedo? Essa história que circula, de rompimento político entre o senhor e João Azevedo, existe ou é invenção?

Ricardo Coutinho – Eu só discuto política pública. A política eu discuto, porque eu sei o trabalho que deu tirar a Paraíba daquela situação, de poder concentrado, para poder chegar essa outra aqui, de indiscutível reconhecimento nacional. Eu sei o trabalho que deu; sei das disputas que tivemos que fazer; as disputas com deputados. E disputas normais, que eu tinha que fazer, porque senão a coisa não se sustentava. Eu governei quatro anos com minoria (na Assembleia Legislativa), mas nem por isso eu chiei, nem por isso fiz diferente. Eu governei com minoria, mas poderia ter governado com maioria se eu não quisesse fazer o que queria e tinha que fazer. Mas eu tenho um caminho, que foi o caminho em que a população votou. Ela votou em 2014 e em 2018. A população disse “eu estou satisfeita com o que está acontecendo, e quero que o Estado continue aqui; quero que as relações políticas sejam, em linhas gerais, dessa forma”. Então, é claro que se acontecer qualquer forma de retrocesso, eu me sinto no direito e no dever de me pronunciar.

PB Agora – Mas o Sr. acha que está acontecendo um retrocesso?

Ricardo Coutinho – Não. Eu estou dizendo “se” acontecer. Eu tenho que ter muito cuidado com essas respostas. Eu me pronunciei com relação ao G10, expressei a minha opinião. Por que é que tem gente que antes era de uma forma comigo, e agora… Antes não tinha G10 e agora tem G10. Por que isso? Qual a razão?

PB Agora – Para o senhor o G10 é o que?

Ricardo Coutinho – Eu acho que você ou é governo, ou é oposição. Eu não gosto muito desse tipo de postura. E não estou fazendo críticas. Eu tenho grandes amigos lá. Tem gente que é bacana. E não estou personalizando a discussão, não é nada disso. Estou apenas dizendo que antes não havia esse tipo de coluna do meio, ou, entre aspas, independente. Independente de quê? Ou é lá ou é cá. Não havia isso. Ai eu fui dar uma opinião dizendo que não queria essa relação. Isso não é ter menos diálogo, porque o diálogo é um souvenir que alguns usam.

PB Agora – Mas lhe acusam de não ter diálogo.

Ricardo Coutinho –Eu sou, na história da Paraíba, o governador mais democrático que este Estado teve. Não porque eu seja bonzinho, mas porque nenhum outro governador dialogou tanto quanto eu dialoguei. Só não dialoguei nessas esferas. Eu não fui bonzinho para quem tem muito poder, e mau para quem não tinha poder nenhum. Eu botei quem não tinha poder para ter vez, ter voz, ter melhor assistência, para ter mais poder real. O poder real não é você sentar na cúpula e a cúpula achar você bacana. Eu quero é que o cara lá de baixo, mesmo sem achar você bacana, mas que ele se sinta cidadão, se inclua nas coisas. Essa é a questão central, e isso é democracia. Democracia não é alimentar as cúpulas. É olhar para quem não tem poder nenhum, e eu fiz isso. As ações que fiz foi para empoderar quem não tinha poder. Observe, em cada coisa que foi feita.

PB Agora – Que avaliação o senhor faz dos seis primeiros meses de gestão do governador João Azevedo? Está dentro das suas expectativas?

Ricardo Coutinho – Eu acho que, evidentemente, João entra pra governar sucedendo um governo, indiscutivelmente, com uma aprovação muito alta. Dinheiro em cofre. Eu deixe quase R$ 300 milhões, para ter como reserva. Evidentemente não quero que João (Azevêdo) tenha as mesmas posturas minhas; ele mesmo diz que somos completamente diferentes. Mas, politicamente, a população votou claramente na continuidade, no projeto. Votou numa relação do governo com os demais Poderes; votou na relação do poder público com a sociedade, votou nisso. Isso é indiscutível. Nós somos diferentes, mas quero demais que ele acerte. Quero demais que esse projeto se torne mais forte, mas para se tornar mais forte – isso não é subjetividade, tem critérios objetivos – é preciso continuar tendo relações republicanas; continuar construindo com o Poder Legislativo, com o lucro da política algo que esteja à altura da população. Nós temos uma população pobre, que estava começando a ter essa primavera democrática, essa coisa de participação; de conselhos, de participação em orçamento. Eu estou a disposição para contribuir, para falar e defender. Mas com o projeto continuando nessa linha.

PB Agora – O senhor acha que João Azevêdo pode estar sofrendo influências de pessoas interessadas em afastá-lo do projeto?

Ricardo Coutinho – Sem dúvida nenhuma. A tentativa de algumas pessoas fazerem isso é óbvia. Isso já presenciei antes e hoje. Essa é a lógica do poder. E gente que foi apadrinhada por mim.

PB Agora – Mas o senhor percebe João Azevedo se distanciando do senhor?

Ricardo Coutinho – Acho que todo mundo é susceptível, de alguma forma ou de outra a esse tipo de influência: “Olha, rapaz, você pode ser maior do que cicrano, por que é que você tá na sombra?”. Isso mexe com as nossas vaidades. Não sei qual a reação de João Azevêdo em relação a isso. Agora, tem esse processo ao redor dele.

PB Agora – O senhor tem dialogado com ele? Ele lhe consulta? Conversam?

Ricardo Coutinho – Não. Administrativamente eu nunca fui consultado para absolutamente nada.

PB Agora – E politicamente?

Ricardo Coutinho – Em algumas crises, sim. Em alguns momentos, como por exemplo, sobre a intervenção no Hospital de Trauma. A intervenção era para eu ter feito, porque eu queria fazer a intervenção no hospital. Só que, no final do governo, eu particularmente que abri mão de tudo. Eu também não sou bobo e avalio que tinha uma eleição garantida para o Senado.

PB Agora – O senhor decidiu não disputar uma vaga de senador em nome do projeto de  Governo, do PSB?

Ricardo Coutinho – Eu tinha uma dúvida de como seria a eleição para governador. Eu achava que a Paraíba com mais oito anos dessa forma, tratando bem o dinheiro público, melhorando o serviço público, fazendo investimento, seríamos um Estado excepcional. Até o semiárido, que é o grande desafio. E o caminho está ai. E eu preferi isso.

PB Agora – Se hoje o senhor tivesse um conselho político e um conselho administrativo a dar a João Azevêdo, quais seriam?

Ricardo Coutinho – Seria: preserve os companheiros; preserve quem botou a cara de fora; preserve quem militou nessas causas. Essa coisa é muito importante. Se blinde. Eu também me blindei. Eu me blindo. Eu filtro tudo. Se blinde de interferências que não sejam muito coerentes com todo o processo que o levou a estar onde está. Eu não estou fazendo reclamação, estou falando subjetivamente, hipoteticamente.

PB Agora – E se o candidato não tivesse sido João Azevêdo?

Ricardo Coutinho – Eu disse uma coisa para o governador João, depois da eleição e antes da posse: João, se você não tivesse sido o candidato, fosse outro, nós teríamos ganhado a eleição. A gente ganhava a eleição; todos os indicadores apontavam isso, desde o momento em que se dizia que João era conhecido apenas por dois por cento dos eleitores. Eu só fazia rir. Vão votar no projeto e se botar qualquer um ganha.

PB Agora – E por que o senhor escolheu João Azevêdo?

Ricardo Coutinho – Eu disse: João, se não fosse você seria um outro, mas você é considerado um construtor do projeto. Então, você teria o direito natural de permanecer. Como você, outros são construtores. Essa coisa é fundamental. Não é ceder uma parte da imprensa que dizia “que governo é esse que não tem novidade nenhuma”. A população não votou em novidade, votou em continuidade. Eu escolhi João, porque acho ele um gestor competente, e acho que ele tem a condição de conduzir o projeto, como outros companheiros tinham.

PB Agora – Quando o senhor pegou o Estado, tinha dinheiro no cofre?

Ricardo Coutinho – Não, não tinha dinheiro nenhum. Tinha muita dívida, tinha coisas a pagar. A gente saiu pagando muita coisa. E eu nunca reclamei disso não. Só que eu tinha consciência que eu não podia passar para quem quer que fosse, fosse até meu adversário, eu passaria daquela forma que eu passei. E olhe que você não encontra setores reclamando de não pagamento. Observe se na Paraíba teve empresa que dialogasse com o Estado, que vendesse para o Estado, que não pagou 13º. Pode rodar por aí. Isso nós cumprimos, porque eu sei o peso do Estado na economia. Eu sei como é que as coisas funcionam. Então, se você presta serviços, você vende um produto, é direito seu receber. Você não precisa estar acorrentado a uma danada de uma grade, você não precisa implorar, não precisa pagar propina. Ninguém tem esse direito. Ricardo é grosso que não recebe fornecedor. Você sabe por que eu não recebo fornecedor? Pra que ninguém nunca dissesse que eu pedi um centavo. E fornecedor recebia como? Na conta. Pergunta a Amanda, secretária das Finanças. Não recebia. Não é aqui. O dinheiro foi para as secretarias, pronto. O Estado foi o grande coordenador desse equilíbrio econômico. Na economia, como um todo, porque o Estado tem uma presença muito forte e nós cumprimos nossa parte. Então, quem entra no governo assim, evidentemente, entra com expectativa enorme. Um governo que em oito anos sai com 84% de aprovação. Ao mesmo tempo, houve o problema da Operação Calvário, que balançou as coisas; oposição truculenta, maldosa começou a fazer uma coisa como se fosse o final do mundo e como se fosse o Estado.

PB Agora – E não era o Estado?

Ricardo Coutinho – Não. Era um problema de dentro da OS, que por sinal, foi uma OS aplaudida por todos. Eu conheci a Cruz Vermelha da África, de olhar, de ler, de perceber como a Cruz Vermelha era importante; era isso que eu conhecia; era isso que o Ministério Público que estava presente na solenidade (de contrato) conhecia. Ninguém pode ser culpado por algum desvio que alguém faça depois. Isso não existe. E eu, que era contra OS, só a trouxe quando vi que não tinha jeito para o Trauma. Toda semana era uma paralisação.

PB Agora – Ainda sobre a Operação Calvário, como o senhor recebeu tudo aquilo envolvendo pessoas tão próximas do senhor?

Ricardo Coutinho – Eu recebi com muita angustia. Apesar de até hoje eu saber muito pouco sobre esta operação. Eu sei do que se vaza para alguns blogues, e isso é terrível. Uma linha de investigação não pode ter esse tipo coisa que no país se tornou comum. Eu vaso para alguns, que criam um negócio; eu vaso o que pode ser, para ver a reação. Isso é uma coisa muito complicada do ponto de vista dos direitos fundamentais da pessoa. Se você pegar o meu discurso de 2013 até hoje é o mesmo, não mudei. Na contramão de todo mundo, eu dizia que era preciso respeitar os direitos da pessoa. Nenhuma democracia pode se sustentar sendo ocasional. Não, para isso aqui, que é do bem, eu posso agir de qualquer forma. Taí agora a Vaza Jato. Que negócio é esse? Eu escolho o criminoso para depois eu ir atrás do crime? Eu vejo gente acusada e exposta, que não tem dinheiro para fazer feira. Não tem dinheiro para pagar advogado. Como é que alguém participa de um amplo esquema de corrupção e não tem dinheiro para fazer feira? Tem algo errado no meio disso. Primeiro, o dinheiro da corrupção que disseram que era R$ 1 bilhão. Vê a maldade. Novecentos e poucos milhões eram todos os contratos para fazer com que o Trauma funcionasse da forma como funciona, com respeito às pessoas. Sem faltar medicamento, sem faltar alimentação, sem faltar nada. E era um Trauma que era um horror. Foi um Hospital que mais que duplicou 150% no número de leitos, que se modernizou, que assinou a carteira de todo mundo. Como é que nesses oito anos, de R$ 900 milhões, sai uma bomba que há um rombo de R$ 1 bilhão? Segundo, o Estado paga a OS exatamente o nível dos serviços prestados. O que nós pagamos, R$ 12 milhões, é inferior a qualquer outro hospital daquele porte que exista no Brasil. É inferior ao Trauma de Campina Grande. Esse suposto dinheiro da corrupção não saiu do Estado. Só o ódio de meia dúzia de blogueiros é que justifica isso. Alguém é acusado de qualquer coisa, estou eu lá presente. O amigo do ex-assessor de Ricardo Coutinho, ai estou eu lá presente. Isso é de uma desonestidade profissional terrível. Se você não tem o dinheiro repassado como sendo coisas, digamos, tá pagando muito mais a OS… Não estou pagando pelo serviço. E mais, o STF tem uma súmula, segundo a qual, seja empresa ou OS o poder público não pode interferir onde é contratado o serviço dentro daquela OS. Por exemplo: se eu faço uma licitação para construção de uma praça, eu não posso dizer a OS que compre o material naquela tal empresa. É vedado ao Poder Público que contrate alimentação em determinado restaurante. É proibido isso. Ao que me parece, você teve uma contribuição, que é isso que percebi até hoje, para uma campanha que, se for verdade, é um processo eleitoral. E que deu nisso uma tentativa muito grande de me queimar. Eu não tenho patrimônio incompatível. Eu tirei, depois de anos e anos, 10 dias de férias. Viajei 10 dias. No 12º dia, eu já estava trabalhando. Meu patrimônio é exatamente aquilo que meu recurso dá. Não tenho movimentação por fora. Os caras me botarem no meio, criarem uma história. Todo mundo se levantou motivado por uma parte da mídia para poder dizer que havia um amplo esquema de corrupção. Se há problemas, identifique. Mas você não precisa pegar uma pessoa e fazer uma audiência de custódia com transmissão ao vivo. Isso é ilegal. O Código Penal Brasileiro define os direitos das pessoas. E se qualquer uma pessoa for inocente, como é fica? Acabou a vida. E porque nós tivemos isso? Tivemos isso, infelizmente, vindo do Brasil. Porque no Brasil se transformou nisso.

PB Agora – Mas quem lhe faz oposição e alguns blogues, inclusive, tenta passar a ideia para a sociedade que o senhor a qualquer momento será envolvido nessa Operação e que  o senhor será preso. Qual é a sua reação a essa expectativa que estão criando?

Ricardo Coutinho – Por justiça, eu jamais serei preso. Por justiça. Não há um único ato. Não há um único empresário na história da Paraíba, seja como prefeito seja como governador, que diga que eu o contatei, o chamei para pedir qualquer coisa ou para dizer que ele só teria algum a coisa se me desse algo. Não há nenhum empresário. Digo isso de uma forma até corajosa, porque o que a gente está vendo hoje aí no caso Lula, os caras começado a dizer que as delações foram por coação. É muito sério. O que a Lava Jato fez foi destruir a Justiça. Foi um golpe muito duro contra a Justiça e a Justiça precisa se levantar, pois a Justiça é o último dos poderes. Por isso, ela é muito importante. Depois que ela decide, acabou. Então, ela tem que estar acima de qualquer coisa e a Lava Jato, claramente, foi um movimento político, antinacional e que, só no pretexto do combate à corrupção, quebrou a economia do País. Decidiu as eleições prendendo o candidato que iria ganhar as eleições e com os méritos que hoje são claros: “olha, ali está o criminoso e agora vamos atrás do crime, não interessa qual seja, ele está condenado”. Eu tenho um profundo respeito pela Justiça, apesar de muitas vezes expressar minha opinião. Mas respeito a Justiça e o Ministério Público. Eu jamais seria preso através da Justiça sendo justa, porque eu não tenho porque ser preso. Ah, mas pode armar. É claro, a vida está cheia disso. Você pegar um sujeito como Lula que está preso por conta de um tríplex que a própria Justiça depois disse que não era dele.

PB Agora – Uma pesquisa do Instituto Opinião, divulgada há poucos dias, lhe aponta como sendo a grande liderança política da Paraíba, na avaliação do povo. A que pode se atribuir índices tão satisfatórios de aceitação popular?

Ricardo Coutinho – A população não é boba. Apesar desse clima de maluquice que estamos vivendo no mundo e no Brasil, as pessoas ainda separam as coisas. A pessoa que consegue sair lá de Passagem, perto de Patos, que quando chovia mulher tinha filho sem chegar na maternidade, porque não conseguia atravessar o rio, sabe o valor de ter uma estrada e uma ponte enorme para ele passar; o cara que ganhou uma adutora; quem está vendo lá em Cuité uma adutora. Eu gosto muito da minha teimosia. Isso me dá problemas, mas me alimento dela. Vamos fazer a barragem aqui de todo jeito, porque o povo precisa. Chegou o Ipham dizendo que não podia; nós construímos a barragem em outro lugar. Você não tem ideia do custo disso. Mas era preciso ter a barragem porque ela era fundamental para Cuité e Araruna. Então, a Paraíba sabe o que aconteceu. Nenhum governador, a partir de agora, vai fazer tanta adutora e tanta estada como eu consegui fazer. Quase 3 mil quilômetros de estrada. Ninguém fará porque não será mais necessário fazer. Irá tapar buraco; fazer interligações regionais. Quanto as adutoras, faltará muito pouco para trazer a universalização do acesso a água nos centros urbanos das cidades do semiárido. E a população sabe que não sou de ficar em cima do muro. Eu tenho opinião. Acho que o grande lance da política é esse. Eu odeio gente que não tem opinião. As pessoas sabem para onde eu vou, gostando ou não gostando. E isso gera confiança. Eu construí uma certa condição política que me deu capacidade de obter respeito e respeitar das pessoas.

PB Agora

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